quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Penso, logo jogo*

Quando enfileirava nos juvenis do Barcelona e era, ainda, pouco conhecido, Lionel Messi sofreu uma fratura no rosto. Dias depois, disputou uma final contra o Espanyol com uma máscara protetora emprestada por Puyol. Incômoda, a máscara não durou dez minutos. Messi a tirou e permaneceu em campo durante todo o jogo.

Mas o que isto significa? Jogador diferenciado? Comprometimento, personalidade de um gigante? Sim, claro. Mas também, demonstra o preparo mental que Messi recebeu durante toda a sua carreira. O argentino teve, aliado à sua excepcional qualidade, apoio irrestrito da família, que mudou-se com ele para a Europa, e acompanhamento contínuo dos técnicos que teve em “La Masía”, local de treinamento do clube catalão.

Messi teve, antes de tudo, uma preparação psicológica perfeita para poder desenvolver suas habilidades e amadurecer para se tornar um craque. É um exemplo de que, além de predisposições genéticas, treinamento intensivo e incentivos financeiros, o trabalho psicológico também é fundamental na formação de um jogador de sucesso.

Infelizmente, esta é uma visão pouco difundida no futebol brasileiro. São raríssimos os casos de clubes que possuem acompanhamento psicológico em sua estrutura profissional –nas categorias de base então, algo digno de registro. De fato, pesquisa recente apontou que 77,9% dos atletas consideram importante a presença de um psicólogo dentro da comissão técnica, ao passo que 75,3% afirmam nunca ter trabalhado com um profissional deste tipo.

A Psicologia do Esporte é uma nova área das chamadas ciências do esporte, que englobam também a preparação física, técnica e tática. Analisar as condições psicológicas dos atletas tem-se mostrado fundamental para alcançar melhores resultados, especialmente no futebol, onde as relações interpessoais acontecem o tempo todo e podem definir o rumo de uma jogada. Por exemplo, uma briga entre dois jogadores durante um treino pode fazer com que um deles não toque a bola ao outro durante a partida, diminuindo as chances de vitória.

Os ‘paizões’

Considerando o atual contexto do futebol brasileiro, em que há a necessidade de se formar atletas mais completos mais cedo, a preparação psicológica é fundamental para que o garoto possa se desenvolver de maneira plena. Ambientes fechados de alojamento, a distância dos familiares e outras dificuldades de adaptação em um novo local, totalmente normais para meninos de quinze anos que estão aprendendo a ter responsabilidade e a resolver seus próprios problemas, podem ser equacionadas com a ajuda de um psicólogo.

Entretanto, é ainda prática comum a do famoso técnico “paizão” nas categorias de base. O perfil destes treinadores, na maioria dos clubes, é o do profissional experiente, que sabe conversar com os garotos na linguagem utilizada por eles e que conversa, ouve reclamações, tira dúvidas e dá conselhos. Tal atitude é positiva e apresenta bons resultados, mas a presença de alguém qualificado a realizar um trabalho mais aprofundado pode, em longo prazo, otimizar a produtividade.

Um dos momentos mais críticos na carreira de um atleta é quando ele se vê escolhido para treinar ou atuar com o time profissional. Hora de alegria, mas também de ansiedade e insegurança. Afinal, o melhor de um elenco juvenil passa a ser o juvenil de um time adulto, o que pode afetar diretamente a auto-estima do garoto. Não é raro ver jovens que aprendem condutas agressivas e anti-desportivas dentro de campo ao observar o comportamento dos “adultos”. É aí que o trabalho psicológico se torna importante, afinal muitos jogadores se perdem nesse processo. É preciso, portanto, maior divulgação e reconhecimento da psicologia do esporte como parte integrante da estrutura dos clubes.


*Coluna publicada originalmente no Olheiros.

3 comentários:

Filipe Lima disse...

Essa questão é muito importante. Ainda mais se lembrarmos que os jovens estão subindo para o time principal cada vez mais cedo no futebol brasileiro e, com isso, recebendo cobrança desproporcional ao que pessoas de tal idade deveriam ter.

É assim que, muitas vezes, potenciais talentos são queimados, principalmente em times que passam sufoco e jogam tudo nas costas dos mais jovens.

Sidarta disse...

O Dario Pereyra jogou com uma costela quebra pelo São Paulo nos anos 80. Então, não dá mais pra falar que não houve exemplo ou que isso nunca aconteceu por aqui.

Abraços,

Bruno Moreira disse...

Os times estão queimando etapas, e consequentemente, "queimando" os jovens. Essa questão é muito séria. Um abraço, Maurício.